Gestores Recomendam Carteira Conservadora

A volta dos juros de dois dígitos e os receios em relação à economia doméstica fazem do caixa o destino preferido dos administradores de fortunas para os recursos investidos neste começo de ano. Isso significa que, na visão deles, neste início de 2014 os investidores, ao menos os de perfil moderado, deveriam manter uma fatia expressiva do portfólio indexada ao CDI. Esta foi a principal recomendação de nove alocadores de patrimônio ouvidos pelo Valor: Citi, HSBC, Itaú, Santander, UBS, Consenso, GPS, G5 e Taler. Na alocação sugerida pelo Itaú e pelo Santander, a fatia aplicada em títulos pós-fixados chega a 60%. Nas outras casas, é de pelo menos 35%.

A renda fixa, somados papéis prefixados e indexados à inflação, deve tomar de 50% a 81% da carteira do investidor moderado. Isso sem considerar a parcela investida em títulos públicos e privados pelos fundos multimercados, que também ocupam lugar de destaque nas carteiras. Eles estão nos portfólios de todas as casas, como destino de 12% a 40% do patrimônio investido. Para os alocadores, 2014 será um ano de volatilidade e sem grandes tendências. Ou seja, garantir retorno vai depender de movimentos táticos. A ordem é ter flexibilidade e liquidez para aproveitar oportunidades pontuais.

“Há muito tempo não ficávamos tão conservadores”, afirma Ennio Moraes, diretor de investimento do Citi. Para um cliente moderado, a sugestão é começar o ano com 40% dos recursos em títulos pós-fixados, muito acima dos 27% da recomendação padrão para esse perfil. “Pretendemos manter posições mais líquidas para aproveitar oportunidades em momentos de estresse”, diz Moraes.

Os pós-fixados ganham atratividade também na opinião de Flávio Souza, diretor executivo do private banking do Itaú, e devem compor uma parcela importante da alocação do investidor moderado. A Selic de volta aos dois dígitos, diz, garante nesse tipo de papel uma taxa ao redor de 4% acima da inflação esperada. A meta para os juros básicos, que começou o ano na mínima histórica de 7,25%, passou por seis altas sucessivas, chegando a 10% em novembro.

Na sugestão de alocação do Santander, os recursos em caixa passaram de 50% no começo de 2013 para 60% agora. “Será um ano com bastante incerteza. A recomendação é atravessá-lo com a carteira mais protegida, mais conservadora”, diz Sinara Polycarpo, superintendente de investimentos do Santander.

Na gestora de patrimônio Consenso, a alocação em caixa indicada aos clientes engordou ao longo do ano e chegou a 40%. “Em um momento de incerteza, com juros mais altos, a vontade de correr risco diminui e você fica mais animado com o retorno líquido e certo”, diz Ronaldo Caselli, sócio da casa.Image

Ainda na renda fixa, as taxas em títulos prefixados e indexados à inflação também estão mais atraentes do que no começo de 2013, apontam os alocadores. As NTN-Bs, títulos que pagam uma taxa prefixada mais a variação da inflação chegam a tomar 20% do patrimônio nos portfólios do Citi e da Consenso.

Depois de ter sido o principal destaque negativo de 2013, comprar títulos indexados à inflação volta a fazer sentido neste ano com as taxas mais fartas, considera George Wachsmann, sócio da gestora de patrimônio GPS. “Não significa que o juro real não possa abrir mais, mas já abriu muito e há ainda os títulos com isenção, a ‘bolsa família’ do investidor”, diz. A renda fixa soma 50% na carteira da GPS para um investidor moderado e a indicação da casa é buscar oportunidades principalmente em títulos privados.

A indicação da GPS também é de compra no caso do maior destaque positivo do ano que passou: o investimento em bolsas no exterior. “Nosso cenário para 2014 é a repetição de 2013: o mundo melhorando e o Brasil piorando”, afirma. Para um investidor moderado, Wachsmann recomenda a alocação de pelo menos 30% dos recursos no exterior.

O Citi também recomenda que o investidor aumente substancialmente a alocação internacional – para quem tem um horizonte de investimento de pelos menos três anos, 30% a 50%, dependendo da necessidades de liquidez, devem ser alocados no exterior, principalmente em ações de países desenvolvidos. A trajetória da política fiscal brasileira e os impactos locais da redução dos estímulos monetários nos EUA preocupam o banco.

Ainda que enxerguem uma alta do dólar no cenário, os alocadores em geral não indicam a moeda americana ou fundos cambiais como investimentos, apenas como uma proteção para quem tem compromissos no ativo. Dificilmente, dizem, a valorização será suficiente para superar o retorno de uma aplicação em CDI.

Para quem deseja a proteção na moeda americana, Caselli, da Consenso, sugere como alternativa dedicar cerca de 10% do patrimônio a fundos multimercados em dólar. É o caso, por exemplo, de uma carteira que a Gávea lançou no ano passado, que além dos 20% alocados no exterior permitidos pela regulamentação, compra dólar futuro com os 80% restantes. É uma opção para quem não tem o R$ 1 milhão necessário para acessar carteiras que investem 100% dos recursos no exterior.

O otimismo com economias de países desenvolvidos, principalmente dos EUA, leva Sinara, do Santander, a sugerir que o investidor procure fundos que aloquem 20% dos recursos no exterior. Para ela, eles devem receber metade dos recursos destinados a fundos multimercados. O restante deve ficar com carteiras long and short neutras, que ganham com a arbitragem entre ações, sem correlação com o Ibovespa. “Com juro e inflação em alta e a economia crescendo pouco, é muito difícil ter um cenário bom para a bolsa”, diz ela.

Para a bolsa brasileira, apenas duas das nove casas ouvidas, G5 e Taler, ousam dedicar uma fatia superior a 10% do portfólio. A gestora de patrimônio G5 sugere aos clientes dedicar 20% do patrimônio a essa categoria de ativos, em um avanço em relação à faixa de 10% a 15% recomendada no ano passado, em que a casa se manteve bastante conservadora. A decisão não é fruto de um olhar mais positivo para a economia doméstica, destaca o sócio Renato Klarnet, mas sim da sensação de que grande parte dos eventos negativos já está nos preços dos papéis. Ele vê oportunidades em algumas ações individuais, como de Itaú e Vale, mas vê mais sentido na exposição via fundos, em que gestores acompanham de perto o portfólio.

“Estamos bastante inclinados a fazer posições em renda variável, vemos essa classe de ativos com um bom potencial”, diz Richard Ziliotto, sócio da gestora de patrimônio Taler. Ele lembra que a bolsa brasileira foi a que menos ganhou valor em 2013 e aposta em uma melhora passada a nuvem de desconfiança com relação ao governo e especialmente à política fiscal.

A alocação do UBS ainda indica o destino de apenas 5% para ações brasileiras, mas o private banking da casa avista uma possível oportunidade de compra à frente. “O consenso de mercado com relação ao crescimento de lucro das empresas começa a dar um primeiro sinal de melhora, depois de dois anos consecutivos de frustrações”, diz Francisco Levy, diretor da área de gestão de patrimônio do UBS, ressalvando que o indicativo ainda é muito prematuro e tímido.

Souza, do Itaú, que destina apenas 2% do portfólio de um investidor moderado a ações brasileiras, considera que a aplicação ainda exige muita seletividade na escolha das companhias. Augusto Miranda, diretor de gestão de patrimônio do HSBC, sugere que o investidor busque uma gestão ativa ou uma seleção de papéis via corretora, evitando carteiras indexadas a índices como o Ibovespa.

Para Miranda, o aplicador deve esperar bastante volatilidade para o primeiro semestre de 2014, com a falta de clareza sobre o cenário, e um contexto mais calmo na segunda metade do ano. “A postura que temos sugerido ao investidor moderado é a de tentar obter alguma receita adicional, mas sempre correndo um risco controlado”, diz.

 

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